15 março 2009

OS FILHOS BASTARDOS DO ROCK

São uma geração de bandas avessa a rótulos, estão, musicalmente, na periferia, e aí exploram novos territórios sonoros, à margem das linhas "mainstream". Têm nomes "esquisitos" - Frango, Caveira, Tropa Macaca, Aquaparque, Osso ou Lobster - e "invadem" a periferia com música menos óbvia, liberta de ortodoxias e sem preocupações de popularidade. Há quem lhes chame "os filhos bastardos do rock".

"A periferia mexe como nunca na música portuguesa. Há uma série de bandas com um nome esquisito que tocam em muitas salas deste país", afirma o colaborador da revista Blitz André Gomes.

"A atitude despreocupada, hedonista, marginal e ritualista ligada ao rock está omnipresente no background da maior parte dos nomes aqui sugeridos", assinal o programador da Galeria Zé dos Bois (ZDB), Sérgio Hydalgo.

"Em Portugal, sobretudo em Lisboa e muito por culpa da programação da ZDB - na altura a cargo de Pedro e Nélson Gomes -, surgiu um número significativo de indivíduos com gosto pela experimentação do formato canção, por criar fora das regras das grandes editoras", acrescenta o também locutor do programa Má Fama, que promove na rádio Zero e na Antena 3 música portuguesa mediaticamente menos exposta.

Membro da banda Osso, Bruno Silva assegura que esta geração periférica sempre existiu, "mesmo que de maneira mais subcutânea", mas que os últimos três ou quatro anos foram particularmente activos.

Membro dos Caveira e co-fundador da associação cultural Filho Único, Pedro Gomes não simpatiza com rótulos, mas sintetiza esta geração numa frase: "São pessoas a fazer música não estandardizada, não de massas, como lhes apetece".

Recusam etiquetas, mas sabe-se que produzem incansavelmente em modo auto-suficiente (editam, muitas vezes, em CD-R ou em cassete e integram netlabels), multiplicam-se em diversas bandas e actuam em qualquer espaço, num reflexo de quem tem a urgência no corpo.

Os Frango, por exemplo, têm ramificações a projectos como PCF Moya e Barcos, Tiago Miranda dos Loosers, Afonso Simões (ex-Fish&Sheep, agora em vários projectos, como Phoebus, Curia, etc.) e Nélson Gomes (também fundador da Filho Único) formaram aos Gala Drop, Símio Superior (André Abel) juntou-se a Ju-Undo para formar os Tropa Macaca e a Pedro Magina para os Aquaparque.

"Por cada projecto que morre, outros dez nascem e isso é um reflexo directo da hiperactividade e da urgência", diz André Gomes.

Membro dos Loosers - considerados por muitos os primeiros desta vaga de bandas -, Tiago Miranda justifica essa proliferação de bandas como uma espécie de "prolongamento da amizade", sublinhando que se trata de uma grande família com vontade de tocar música criativa.

Co-fundador da Lovers&Lollypops, editora, distribuidora e promotora de espectáculos desta música periférica, Joaquim Durães afirma que a urgência em tocar e o facto de usarem suportes mais imediatos, como os CD-Rs, é reflexo da "necessidade de partilhar aquilo que se faz com outras pessoas".

Editoras de CD-R como a Searching Records, a Lovers & Lollypops, a nemnuncadiscos, a Let`s Go To War e Ruby Red e as netlabels Test Tube e Merzbau acolhem a mais recente música periférica portuguesa. "Estamos a falar de uma onda ´do it yourself´. Prende-se com a questão da regularidade - algumas destas bandas lançam quatro discos num ano, algo impossível para a maior parte das bandas mainstream", explica André Gomes, também membro de uma das bandas deste circuito, os DOPO. "Grava-se a música numa semana e na seguinte já existe em forma de disco, livre e muitas vezes gratuita", acrescenta. Bruno Silva explica que o formato CD-R e a existência de netlabels é "coadjuvante com a própria emergência palpável desta música, além de estar relacionada com o reduzido fluxo monetário". Na opinião de Pedro Gomes, o formato CD-Rs não permite a perpetuação da música. "A ideia toda do `do it yourself` - argumenta - é muito fixe e espontânea, mas a nível de criação de um documento que fica, acaba por não funcionar.

Penso que qualquer pessoa que tem maturidade para fazer música quer deixar a sua marca para sempre". Com uma produção flutuante e de linhas musicais entre a experimentação, o improviso e o ruído, torna-se difícil "unificar" o som destas bandas.

Ainda assim, há uma tentativa de explicar a que soa a "nova" música periférica portuguesa. "Há uma grande parcela de bandas que realmente são confrontadoras e ruidosas, mas há outras que exploram territórios menos rudes", diz André Gomes.

Marta Poiares, Lusa, 22-12-2007

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