21 março 2009

TELECTU



Duo musical constituído por Jorge Lima Barreto e Vítor Rua, formado em 1982 na III Bienal de Vila Nova de Cerveira. No mesmo ano editou o álbum "Ctu Telectu", numa formação heterodoxa de piano, órgão electrónico, cravo, sintetizador, guitarras eléctricas baixo e solo, guitarra portuguesa bateria e voz. O poliartista António Palolo tornou-se um terceiro membro de Telectu. Desde cedo, a prática musical do duo foi orientada por um programa de experimentação de diferentes soluções interpretativas e composicionais, a par de uma rara actualização tecnológica; este cariz experimental levou a que essencialmente interpretasse as suas composições, com excepção de peças conceptuais como as "Vexations" de E. Satie e, as "Compositions 1960" e "X for Henry Flint" de La Monte Young,1982. Telectu criou partituras gráficas, tablaturas, tatuagens instrumentais, e considerou o disco e o vídeo como fixação e suporte dos seus trabalhos. Laboratório para síncrises de pop experimental e improvisação electroacústica, ao longo da década de 1980 a sua produção foi marcada, primeiro pela introdução em Portugal da música minimal repetitiva, concocção de electronic live, banda magnética,, guitarra electrónica exibida com mestria por Rua, vibrafone, piano eléctrico, computador de ritmos, e um desfile de modelos de guitarras, teclados protótipos, passarela de engenhos digitais, percussões heteróclitas, glabras e electrónicas; exotismos instrumentais, tratamentos acústicos em tempo real até cerca de 1986, com edições discográficas relevantes em vinilo episodicamente reeditados em CD, depois, optou pela busca de novas tipologias musicais denominadas "jazz-off", "música mimética", "rock-pop-off", "nova música improvisada", e.a. teorizadas em livros ou artigos de J.L.B., ou em propostas pedagógicas, manifestos que acompanhavam concertos ou edições discográficas e/ou videográficas; reconhecido como um grupo de culto, Telectu apresentou inovações instrumentais e dispositivos de ponta, como o e-bow, o sampler, o stick chapman, controladores digitais de sopro, corda e percussão, o DAT, a workstation, a wavestation, o EWI, o sound sistem digital, processadores, sequenciadores; uma extravagante parafernália electrónica, instrumentarium etnográfico, como o sitar e a tampura indianos, a africana kalimba, pipa, sheng e gongues chineses, protótipos como o litofone, flautas e idiofones asiáticas e sul- americanas, o australiano didgeridoo, esculturas sonoras ou cordofones inventados por Rua, quinquilharia, toys, gadgets, objectos sonoros. Os anos 1990 apontaram para o desenvolvimento da improvisação estruturada, no fraseado idioletal, polirritmos, agregados, clusters, sons concretos da natureza, domésticos, industriais ou urbanos, sinusoidais, ruídos, sintagmas vocais, mimese que recria imagens e códigos fora dos padrões instituidos, estilo "groove" como imitação digital do instrumento acústico, hibridações estilísticas e tipológicas , e.a. técnicas e recursos tecnológicos; requisitou colaboração de artistas portugueses do desde os anos 1980 (e.g. Jean Saheb Sarbib, Luís Carlos, Carlos Zíngaro, Nuno Rebelo, Sei Miguel, Filipe Mendes, António Duarte, Rafael Toral, Miguel Azguime); Telectu passou a convidar frequentemente músicos estrangeiros de absoluto primeiro plano no movimento estético congénere, cujas parcerias resultaram na edição esporádica de fonogramas como registo dessas sessões. Nos finais do século XX e inícios do 3º milénio, Lima Barreto adoptou incidentemente o piano (teclas, cordas, percussão, preparado) e Rua informatizou o seu discurso com o computador, o eventide; declinando um enredo pós-modernista de acentuada verve jazzística, sobreposições de formas, jogos de citação, radicalismo performativo, espectáculo de video e luminotecnia, novos procedimentos de produção, noções de espacialização incluídos em notáveis antologias como "State of The Union", New York, 2001; "Bed of Sound", Contemporary Art Center, New York, 2001; "Explorating Music From Portugal", London, 2001; "Antologia da Música Electronica Portuguesa", 2003. Nas duas décadas de existência acumularam inúmeros registos em cassete áudio e vídeo, DAT, CDROM, CDI, banda magnética, computador, um espólio projectado para futuras e eventuais edições. Ao longo de toda a carreira e numa diversificada praxeologia, apresentou-se em festivais, galerias e museus; teatros, salas de concerto e auditórios onde desenvolveu uma prática de improvisação conjugada com outras posturas performativas e poliartísticas e cenografias originais; realizações com actores, pintores, videastas, e.a.; nestes eventos performativos, sobretudo nos anos 1980, recorria frequentemente à surpresa e à ironia como estratégias de resistência e de criação de situações surpreendentes. Telectu desde a sua origem envolveu-se em projectos interartísticos e multimediáticos, com destacados artistas nacionais. Instalações musicais multimédia de elevado gabarito. Telectu é o epónimo musical português ligado à performarte, desenvolvendo situações sónicas, corporais, cénicas e psicodramáticas; interacção de música electronic live com a poesia dita de e por Eugénio de Andrade (video, 1986), poesia s concreta, fonética, infoarte; música funcional para teatro; música para cinema; música para video arte; arrolou uma videografia própria da autoria de Rua e Palolo em obras paradigmáticas como "Autoloop", 1986; "Compgraf", 1988; a série de animação "o carro amarelo",1985-1988; desde 1984 que a melhor parte dos concertos de Telectu foram videogravados; articulou o material sonoro, o fonograma enquanto objecto estético, capas, iconografias e cartazes, realizadas por Palolo ou pelo dois músicos, utilizando materiais e técnicas gráficas inusitadas como cortiça, seda, serigrafia, objecto multiforme, e.a.). Telectu é o epítome de uma vanguarda, é, em Portugal, o mais significativo exemplo da música pós-moderna, aventura poliartística, "trajectória rizomática da obra aberta", "apologia da intuição e do prazer do instante". [Jorge Lima Barreto] Jorge Lima Barreto faleceu em Julho de 2011.

DISCOGRAFIA


CTU-TELECTU [LP, EMI, 1982]


BELZEBU [LP, Cliché, 1983]


OFF-OFF [2xLP, 3 Macacos, 1984]


PERFORMANCE: IV BIENAL CERVEIRA [LP, 3 Macacos, 1984]


TELEFONE: LIVE MOSCOW [LP, Telectu, 1985]

FUNDAÇÃO [LP, 3 Macacos, 1985]


ROSA-CRUZ: LIVE GULBENKIAN [LP, 3 Macacos, 1985]


HALLEY [LP, CNC/Altamira, 1986]

DATA [LP, Edição de Autor, 1987]


CAMERATA ELETTRONICA [2xLP, Ama Romanta, 1988]


MIMESIS [LP/CD, Schiu!/Strauss, 1988/1999]

BEN JOHNSON [LP, Anónima, 1989]


LIVE AT KNITTING FACTORY NY [LP, Mundo da Canção, 1990]


DIGITAL BUIÇA [LP, Tragic Figures, 1990]


ENCOUNTERS II [LP, Mundo da Canção, 1990]


EVIL METAL [CD, Área Total, 1992]


BELZEBU/OFF OFF [CD, Ananana, 1993]


THEREMIN TAO [CD, SPH/Extasis, 1993]


BIOMBOS [CD, China Records, 1994]


TELECTU, CUTLER, BERROCAL [CD, Fábrica de Sons, 1995]


À LAGARDÈRE [c/Jac Berrocal] [CD, Numérica, 1997]


LEONARDO INTERNET [USA/USSR] [CD, Strauss, 1997]


PRÉLUDE, RAPSODIES & CODA [CD, NMP, 1998]


JAZZ OFF/MULTIMEDIA [CD, Ananana, 1998]


SOLOS [2xCD, Baucau Records/Strauss, 2000]

ACÚSTICA AMOROSA [CD, NMP, 2002]


QUARTETOS [3xCD, Clean Feed, 2003]


CTU [Reissue] [CD, iPlay, 2008]

COMPILAÇÕES


AMA ROMANTA 86/89 [LP, Ama Romanta, 1989]


AMA ROMANTA SEMPRE! [2xCD, Candy Factory, 1999]

VOLUME: BED OF SOUND [CD, Moma, 2000]
STATE OF THE UNION 2.001 [3xCD, Electronic Music, 2001]


EXPLORATORY MUSIC FROM PORTUGAL 01 [CD, Calouste Gulbenkian, 2001]


EXPLORATORY MUSIC FROM PORTUGAL 04 [CD, Calouste Gulbenkian, 2004]


ANTOLOGIA DA MÚSICA ELECTRÓNICA PORTUGUESA [CD, Plancton Music, 2004]

PRESS
Telectu-Arbeit, Paulo Eno, LP nº24 de 13-04-1989
Música Minimal Repetitiva, Portugal Litoral, 1990
Poucos, mas Bons, Miguel Santos, Blitz nº273 de 23-01-1990
O que Desce tem de Subir, Rui Eduardo Paes, Blitz nº370 de 03-12-1991
Telectu, Victor Afonso, Ritual nº6 de 02-199
20 Anos de Músicas Alternativas, Rodrigo Affreixo, Blitz nº 886 de 23-10-2001

2 comentários:

jão da silva disse...

dois vultos brilham na sombra, ao longe, sempre distantes - nas mãos trazem máquinas de sons futuros.Todos à sua volta os ignoram num tempo fixo; a espaços, o vasto pátio de entulho parece querer mover-se - em vão. Os vultos ascendem, bem vivos; já nada os prende. As máquinas já são passado e os olhos que ouvem dos sobreviventes já não os podem agarrar. Quem foi que se esqueceu de filmar?

Anónimo disse...

vi uma vez o halley com outra capa. com o cometa. era uma caixa. trazia uma serie de coisas la dentro, nao me lembro bem o que