08 março 2009

ULISSES COBARDE E OS HERÓIS



Participaram nos Concursos de Música Moderna do Rock Rendez Vous e Festival Luso Galaico de Rock ao Vivo no Pub Luís Armastrondo no Porto (6º lugar) para se mostrarem. Musicalmente bons músicos e com influências que irão percorrer toda a sua já longa carreira em diversos projectos, o grupo dos irmãos Praça abria os concertos com uma versão potente de "Total Recall" dos inesquecíveis The Sound e debitavam posteriormente os seus temas que variavam entre o psicadelismo e a música urbana britânica da primeira metade da década de 80. Fechavam com uma versão de "Holy Holy" de Bowie, uma das eternas e assumidas referências dos mentores do projecto. Chamam-se Ulisses Cobarde e os Heróis mas a palavra medo não faz parte do seu dicionário de bolso. Na bolsa trazem canções sôfregas que Vila do Conde aceita sem algodão nos ouvidos. São cinco e falam, como convém, a cinco vozes. Poderiam pois ser um grupo coral, mas são apenas uma banda onde as opiniões se chocam, enquanto tiram à sorte quem entre eles faz o papel de herói e de cobarde. Simão Praça (voz), Miguel Lorga (guitarra), Paulo Praça (baixo e voz), Filipe Adu (strings/sintetizadores) e Luís Fonseca (bateria) trocam as voltas às canções desde Agosto de 1987. Quando lhes perguntámàs se a pop portuguesa era uma Bela Adormecida, responderam apenas: "Está à espera do nosso beijo". Encaram o futuro com um sorriso nos lábios: que farão quando forem famosos e remediados? "Vamos promover a Ulisessesmania, dar megaconcertos em estádios e em Veneza". Mas por enquanto são mais pobrezinhos e continuam à procura de uma garagem para ensaiar. Talvez um dia sejam uma garage band. Todos usam pastas dentríficas, mas se uns preferem usar as que não andam na boca de toda a gente, outros querem (eles próprios) andar na boca de todos. Dizem mentiras, mas não têm vergonha e cada um deles tem os seus gostos pessoais. Filipe gosta muito de recordar que dançou «rock" no colo da mãe com apenas quatro anos e Simão não pode deixar de lembrar que, precocemente, já se excitava com cinco. O que os outros disseram temos vergonha de repetir. Filipe, um dia, sonhou que era Presidente da República e que transformava Portugal numa Nação onde só se poderia depen­der da tríade sex, drugs and rock'n'rool. Luis estranha quando os seus sonhos não são eróticos. A dúvida existencial assaltou­-nos, no entanto: e a vossa música é castiça ou castigo? "É castiçal", dizem. Quando retirámos da algibeira a questão seguinte (o que é mais importante, ter uma boa imagem ou saber dois acordes de guitarra?) responderam desconcertantemente: "Ambos". Trazem música às costas para distribuir aos pobres de espírito. Mas se eles são heróis, onde é que se terão escondido os cobardes da música? Riem: "Na algibeira de Homero..." [Ondina Pires, Êxito Magazine, 09-08-1989]

PRESS
Depois dos Factos, Pedro Mesquita, LP nº12 de 19-01-1989

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