25 abril 2009

FAISCAS



Foram a primeira banda punk em Portu­gal. Pelo menos é o que reza a história. Mas nunca gravaram nenhum disco, tendo sido batidos, nesse aspecto, pelos Aqui d'El Rock que editaram dois singles. O inicio dos Faíscas pode ter ocorrido na cervejaria Munique, em simultâneo com o arran­car de outros projectos como os Raios e Coriscos ou os Delirium Tremens e, mais tarde, Xutos & Pontapés. O local de ensaio era a Senófila, onde ensaiava meia Lisboa, e também aí se cruza­ram com os Xutos & Pontapés. Aliás Zé Pedro e Zé Leonel, dois dos fundadores do grupo de "Sémen", chegaram a colaborar, como performers, nalguns concertos dos Faíscas. A sua função era dar estaladas no público e obrigá-lo a mexer. Começando por tocar na boite "Brown's", em Lisboa, os Faíscas tiveram também como road manager Zé Pedro que viria a formar os Xutos e Pontapés. O seu primeiro espectáculo aconteceu em Lisboa, no Festival da Revista "Música e Som", onde tocaram 13 temas (de clássicos do rockabilly como "Roll Over Beethoven" a temas originais como "Não Perdes Pela Demora" ou "Faca Na Barriga". Mas os Faíscas, mais do que divertir e escandalizar serviram para apalpar o terreno para a criação de uma série de projectos que marcaram a década de oitenta e toda a história da música portuguesa. Subiam para o palco com a cara pintada, vestidos de uma forma estranha, principalmente tendo em conta que em Portugal poucos acompanhavam os fenómenos britânicos dos Sex Pistols e The Clash, pejados de alfinetes e cruzes suásticas. Para manter o ar, os nomes eram camuflados por pseudónimos: Rocky Tango (aka Rock Assassino, Paulo Pedro Gonçalves), Dedos Tubarão (Pedro Ayres Magalhães), John Lee Finuras (aka Punhos de Renda, Jorge) e Gato Dinamite (aka Flash Gordon, Emanuel Ramalho). Falta dizer que corria o ano de 1978 e na altura pouco mais havia no nosso país que os Tantra, Beatnicks, Petrus Castrus e Arte & Oficio, todos na onda do rock sinfónico, à excepção dos últimos, dedicados ao hard-rock. Apesar de terem afirmado numa entrevista que se tratavam de uma banda que vinha para ficar, os Faíscas duraram pouco, muito pouco mesmo. Em Julho de 1979 aparecia um disco dos seus sucessores, Corpo Diplomático. Originários da evolução dos Faíscas, os Corpo Diplomático surgiam com uma formação reforçada e editavam um dos melhores discos portugueses de sempre, preconizando alguns anos antes, aquele que seria adoptado, a partir da 1984, como rótulo para a música portuguesa. O álbum intitulava-se "Música Moderna". Na origem destes projectos - Faíscas e Corpo Diplomático -, três nomes essenciais, por baixo dos pseudónimos: Paulo Pedro Gonçalves, Pedro Ayres Magalhães e Emanuel Ramalho. Paulo Pedro era talvez o melhor músico de entre eles. Regressado do Canadá e dominando o acordeão, consta que fingia não saber tocar, pois o punk era tocado só com acordes e os seus executantes geralmente não queriam sequer saber da técnica. O Pedro Ayres sabia menos, mas tinha já uma atitude totalmente revolucionária, que foi marcando toda a sua carreira, embora sempre de maneiras diferentes. Emanuel Ramalho formou depois os Street Kids, juntamente com Nuno Rebelo, e tocou em mais grupos do que qualquer outro músico português, incluindo os Rádio Macau e a banda de Lena D'Água. Foi também baterista dos Delfins. Em relação a Paulo Pedro Gonçalves e Pedro Ayres Magalhães, escusado será dizer que foram mentores dos Heróis do Mar, os LX 90, um, e os Madredeus, Resistência e Delfins, o outro. [Pedro Brinca]

DISCOGRAFIA


FAISCAS [7"Single, Fightback Records, 2015]

PRESS
O Rock Português em Festival M&S, Jaime Fernandes, Música & Som 30,05-1978
A Faísca do Punk, Pedro Brinca, Ritual nº7 de 04-1993

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