10 agosto 2009

ALIX NO PAÍS DAS MARAVILHAS



Uma espécie de "Alice no Pais das Maravilhas" em versão cyberpunk com acompanhamento musical predominantemente electrónico foi o que Nuno Rebelo e João Peste apresentaram na segunda-feira da semana passada no pavilhão SEC da Feira do Livro. O espectáculo, com a estrutura de um livro e concebido propositadamente - para o evento, conta a história de dois personagens retirados do universo da Banda Desenhada: Alix e Enak, que, percorrendo mil aventuras, encontram outras tantas figuras, entre as quais se contam o Capitão América (com uma espectacular entrada em cena: "Olá, puto! Estás bom?", Andy Warhol, uma fatia de bolo de natas e Jane Birkin. João Peste, que em entrevista recente afirmou estar na disposição de abandonar o meio musical, leu o texto (escrito por ele próprio) e cantou. Nuno Rebelo tocou guitarra eléctrica, violino, percussões, flauta e, sobretudo, accionou computadores. Como nos livros a sério, houve prefácio: uma guitarrada apoiada por computador que mostrou logo de principio que as surpresas poderiam surgir. A seguir entrou João Peste que iniciou a leitura do seu conto. A narração, sem referências espacio-temporais que não fossem as circunstâncias transportadas pelas próprias personagens, desenrolava-se em ritmo lúdico e, por demais, visualizável. Um certo nervosismo e uma dicção não muito correcta de Peste desvaneceram-se por alturas do terceiro capitulo, depois de ter entrado em cena Jane Birkin. Rebelo e Peste passaram então a uma versão fabulosa da conhecida canção de Serge Gainsbourg, "Je T'Aime... Moi Non Plus", a partir da qual a audiência se rendeu e não mais resistiu aos aplausos. Sem poder entrar na sala tinha ficado uma pequena multidão, impedida de assistir ao espectáculo dada a reduzida dimensão do espaço em que este se desenrolava. Com a programação do pavilhão da SEC completamente preenchida até ao final da Feira do Livro, a organização prometeu, se posslvel, repetir este e outros espectáculos que mostraram forte adesão do povo. Enquanto prosseguia o romance em capítulos de Alix e Enak, Peste e Rebelo foram-se libertando do estigma da falta de ensaios (o espectáculo foi concebido e montado em três ou quatro dias), ao mesmo tempo que o texto perdia as referências neuromânticas mais óbvias e vulgares e a música ganhava consistância tornando as falhas quase imperceptíveis. Até ao final, foi notório o crescendo de confiança e de entrosamento entre os intérpretes. Estes dois bem que deviam ser obrigados a repetir o espectáculo dessa noite. [Miguel Francisco Cadete]

PRESS
Alix no País das Maravilhas, Miguel Cadete, Blitz nº 292 de 05-06-1990

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