29 agosto 2009

BRAMASSAJI / BRAMMA



Durante os idos de 1981, enquanto se vivia, ainda o grande "boom" do Rock português, formam-se, no Porto, os Rococó, projecto do qual irão sair, em 1984, Carlos Vieira (guitarra e voz), Pedro Gonçalves (guitarra) e Fernando Guedes (bateria), aos quais se junta, pouco tempo depois, Armando Coelho (baixo). No decorrer do ano seguinte, participam no 2º Concurso de Música Moderna Portuguesa do Rock Rendez-Vous, acto que representa a sua primeira apresentação ao vivo. Mais para o final do ano, o colectivo expande-se, com a entrada de Rui Espírito Santo, que assume as vocalizações principais, facto que permite a Vieira concentrar-se na guitarra. É com essa formação que, ainda em Novembro desse ano, vencem o I Festival Nacional de Nova Música Rock, que teve lugar no Pavilhão Infante de Sagres, no Porto. Como prémio, ganham o direito à gravação de um disco, pela Dansa do Som, a edição do qual será víctima de atrazos e fricções entre a banda e a editora, devido ao facto de esta pretender já não esse formato para o registo mas sim a inclusão dos Bramassaji numa compilação com outras bandas e referente ao referido Concurso em que haviam participado. Entretanto, e durante todo o ano de 1986, dão dezenas de concertos, um pouco por todo o pais, chegando, inclusive, a tocar na Galiza. 1987 continua recheado de apresentações ao vivo, ao mesmo tempo que vê, finalmente, a resolução da querela com a Dansa do Som e a edição do tão aguardado registo de estreia, um 12’’EP de três temas, brilhantemente intitulado “Princípios”. Este estabelece-os, desde logo, como banda de referência, encontrando-se incluido nele o tema "Pescador", que conseguiu obter o estatuto de hit underground e tornar o grupo em referência de culto. A sua sonoridade, reminescente do Pós-Punk e tingida com tonalidades da melhor Cold Wave, é contagiante, vibrante e viciante, ao mesmo tempo que serve de veículo a uma poesia de tons sombrios feita de palavras cruas e directas. Aliás, e durante todo o seu percurso, a preocupação com as líricas vai ser uma constante no seu trabalho, quer pela criação própria de poemas, quer pelo recurso a outros poetas, mormente Mário de Sá Carneiro ("O Fim"), Sidónio Muralha ("Pescador"), José Gomes Ferreira ("Insónia"), Miguel Torga ("Espremo o Sol num Poema") ou Appio Cláudio ("Na Tua Memória"). Adquirindo 700 das 1000 cópias disponibilizadas, lançam-se à promoção do EP, promoção esta que se prolonga por todo o ano de 1988, extendendo-se a terras de Espanha, e vai passar, também, por apresentações em vários progaramas de televisão. Durante o ano de 1989, verificam-se alterações na composição do projecto. Saí Espírito Santo, voltando Carlos Vieira a assumir as vocalizações, ao mesmo tempo que Rui Águedo é convidado a entrar como guitarrista. É com esta formação que entram em estúdio para gravar o digno sucessor do anterior trabalho, não descurando, contudo, as apresentações ao vivo. Contudo, a derrocada do edifício onde ensaiavam, irá provocar não só a perda desse local de ensaios como, também, da maior parte do material que posuiam, facto que só irá ser ultrapassado durante o decorrer de 1990. É, então, durante esse ano, que é editado o novo registo, mais um EP de três temas, "Dança na Arena", em edição de autor (distribuido pela MC/Mundo da Canção), e que vê os Bramassaji associarem-se à Liga Portuguesa dos Direitos do Animal, versando o seu tema principal, "Miura", sobre esse degradante espectáculo que são as Touradas, selvajaria disfarçada de acto cultural. A sua sonoridade, embora não muito distante da do primeiro trabalho, beneficia de uma melhor produção, confirmando, em todos as vertentes, as promessas feitas em “Princípios” e implantando, sem margens para dúvidas, os Bramassaji como um dos melhores projectos nacionais. Aos concertos que continuam a dar por todo o território nacional, seguem-se 12 datas em Espanha, provando que o grupo não era apenas um fenómeno nacional e que tinha pés para andar por palcos de outras terras. Ainda durante esse ano, entram, de novo, em estúdio, para registar o mais que aguardado e merecido longa duração. Este, que já não contará com Águedo, irá intitular-se "Um Outro Olhar", e verá a luz do dia já em 1991, pelas mãos da MC/Mundo da Canção. Contendo nove temas (um dos quais instrumental, e que servirá de abertura nos concertos que se seguiram à sua edição), revela um excelente trabalho de arranjos, especialmente a nível do baixo. Todo o potencial dos Bramassaji é exposto neste disco, quer a nível sonoro, quer a nível dos textos, embora a adição de teclados a tempo inteiro (tocados por Alberto Almeida), provoque uma alteração na dinâmica composicional, dando outra dimensão às suas atmosferas e paisagens sonoras. Curiosamente, o disco é bem recebido pela crítica musical (facto raro em Portugal, diga-se de passagem, em discos com sonoridades deste tipo) e os concertos da digressão que se segue provocam óptimas reacções. Ironia do Destino, será esta a última série de concertos que darão, uma vez que, em Novembro, a banda terminará as suas actividades, devido a divergências estéticas e a motivações pessoais, verificando-se a saida de Alberto Almeida e, sobretudo, de Pedro Gonçalves, precisamente quando se trabalhava num sucessor a esse álbum. A saida deste último vai influenciar o rumo que a banda irá tomar a seguir, facto mais que normal devido, também, à entrada de um novo guitarrista (em 1992) para o seu lugar, Luís Leite, embora o resto da formação (o trio inicial) se tenha mantido (mas não por muito tempo, uma vez que o baterista irá, também ele, sair do grupo). Com todas estas alterações, esse ano vê, oficialmente, o encerrar do capítulo Bramassaji e o início dos Bramma. Já durante 1993, Armando Coelho sai, também ele, do novo projecto, restando apenas, e por fim, Carlos Vieira. Mesmo assim, os Bramma prosseguem, começando a dar concertos (entre os quais o das Noites Ritual Rock (projecto ao qual Carlos Vieira está ligado), tendo, para isso, recrutado um novo naipe de músicos. Além de Vieira, entram Luís Marques para a guitarra, Paula Sousa (que tinha pertencido aos Repórter Estrábico e era membro dos Três Tristes Tigres) para os teclados, Fernando Guedes (que regressa temporariamente) para a bateria e Paulo Castro para o baixo. 1994 decorre sem grandes sobressaltos, consolidando-se a formação com os músicos que gravariam o próximo álbum (editado em 1995 pela Numérica), e que compreendia, além de Carlos Vieira, Jorge Lima e Luís Marques (guitarras), Mário Cunha (bateria) e Vítor Lima (baixo), tendo, entretanto, saido Paula Sousa (ainda em ’93) e Fernando Guedes (que ainda participa nas sessões de estúdio do longa duração, mas sai em ’95 antes do seu lançamento). O novo trabalho, "Mais Perto", revela uma nova faceta sonora, coadunante com o novo nome que se assumiria como bandeira. A sonoridade torna-se mais pop/rock, embora mantenha as suas características cinzentas e as suas raízes oitentistas (como a provar essa diferenciação, atente-se às duas reconstruções dos temas "Pescador" e "Espremo o Sol num Poema", bem como todas as canções antigas versionadas ao vivo). O disco, simples e despretencioso, peca apenas pela comparabilidade, inevitável, com os registos anteriores, mas constitui um valor por direito próprio, meritório das boas críticas de que foi alvo, tendo, inclusive, sido considerado um dos 10 melhores do ano, inclusive pelas rádios. Infelizmente, nos finais de 1996, a banda dá por findas as suas actividades, precisamente quando estavam a atingir a tão arduamente merecida notoriedade. Para trás fica uma obra imorredoura e uma sonoridade única e vincada no panorama musical português!... Carlos Vieira esteve, entretanto, ligado à revista Ritual, às Noites Ritual Rock, fez rádio, foi A&R da Numérica, promotor da BMG, manager, e está, actualmente, à frente da Xinfrim. Alberto Almeida é fotógrafo musical, constando do seu currículo o Pedro Abrunhosa, os Clã, Zen, Blind Zero, Dealema ou Wipe Out. Rui Águedo encontra-se à frente dos destinos do bar alternativo Wait, no Porto. Jorge Lima e Vítor Lima continuam a tocar e compor sob nome próprio. [Paulo Martins]

DISCOGRAFIA


PRINCÍPIOS [12"Maxi, Dansa do Som, 1987]


DANÇA NA ARENA [12"EP, Edição de Autor, 1990]


UM OUTRO OLHAR [LP, Mundo da Canção, 1991]


MAIS PERTO [CD, Numérica, 1995]

CASSETES
Rock Rendez Vous, Lisboa 1987 (9 Temas, 43:11)
Viseu 1989 (4 Temas, 10:37)

PRESS
Bramassaji ou a Subliminação da Alma, Luís Freixo, Blitz nº58 de 10-12-1985
Um Outro Olhar, Ricardo Alexandre, Ritual nº2 de 03-1991
Ejaculação Precoce, Bruno Maçães, Blitz nº338 de 23-04-1991
Orgulhosamente Sós, Raquel Pinheiro, Blitz nº344 de 04-06-1991
Portas que se Abrem, Jorge Manuel Lopes, Blitz nº 560 de 25-07-1995

3 comentários:

Edward Soja disse...

Olá, amigo.

Não percebi muito bem como (ou melhor, quando) é que os Rococó se tornaram nos Brammassaji...

(ah, atraso não é com z e vítimas não leva c (sofres, neste caso, influência do Inglês...)

:)

Bourbonese disse...

Rococó foi um projecto portuense anterior aos Rococó do Barreiro. Tão simples como isso, portanto fica desde já dada a explicação solicitada. Correcções efectuadas de acordo com solicitado. Já agora: não é Brammassaji (como escreveu), mas Bramassaji. Abraço

Edward Soja disse...

Eheh,

obrigado, amigo.

:)

Continua. Força.
Seguidor atento sou.