22 agosto 2009

HUMANOS



Vinte anos após a morte de António Variações, três conhecidos músicos portugueses deram voz a alguns inéditos de um dos maiores compositores nacionais. Manuela Azevedo, Camané e David Fonseca juntaram-se para dar vida a um CD com doze originais de Variações. O compositor, falecido em 1984, deixou algumas gravações caseiras, em cassete. Em poder da família, essas canções deram origem aquele que deveria ter sido o terceiro CD de António Variações. Além das três vozes conhecidas, os "Humanos" foram compostos também por Hélder Gonçalves e Nuno Rafael nas guitarras, por João Cardoso nos teclados e por Sérgio Nascimento na percussão. Quando Manuela Azevedo, Camané e David Fonseca se reuniram para interpretar um álbum de inéditos de António Variações não se adivinhavam as repercussões no panorama musical português. A morte prematura de Variações deixou uma série de temas - alguns dos mais brilhantes que o extravagante ícone da pop nacional escreveu -, que não chegou a lançar e cuja relevância sugeriam um lançamento póstumo. Um projecto que levou mais de dez anos a concretizar e que passou por diversas fases até findar na sábia decisão de reunir um colectivo musical já reconhecido do público e que tivesse ou pudesse vir a ter alguma afinidade com as músicas de Variações. A banda, constituída ainda pela direcção musical e instrumentação de Hélder Gonçalves dos Clã e Nuno Rafael bem como Sérgio Nascimento e João Cardoso, teve o seu invulgar nascimento no momento em que todos os seus elementos pisaram o palco para revelar desde logo um tema de origem desconhecida – inédito – como que a convocar o espírito luso de Variações. O sucesso de tripla-platina do disco, pouco surpreendente tendo em conta ter-se tratado do mais brilhante álbum português lançado no ano da sua edição, garantia já uma série de espectáculos recheados de boa música e sonoridades contrastantes. Mas não se esperava a apoteose épica a que se pôde assistir nos Coliseus dos Recreios, parecendo tratar-se da consagração de uma banda já com uma longa existência, com hits passados estrondosos. A realidade é que a mescla de influências e culturas musicais dos elementos do projecto enriqueceu sobremaneira toda a experiência. David Fonseca na sua excentricidade contagiante, Manuela Azevedo com sensualidade e calor na voz e no corpo e Camané numa quietude desconcertante, deixaram marcas de génio no disco e concertos dos Humanos. Dos apontamentos de rock rasgado de "Na Lama", "A Culpa é da Vontade" e "Não me Consumas", à introspecção partilhada de "Muda de Vida" e "Já não sou Quem Era" e na partilha contagiante da verdadeira alma lusitana em todas as suas amplitudes em "Adeus que me Vou Embora", "Quero é Viver" e "Gelado de Verão". Nos espectáculos dados, "Maria Albertina" - uma inesperada ocorrência de deliciosa infecção a nível nacional -, deu mote à festa que já se fazia sentir desde o início. Contudo os momentos em que se desviaram do alinhamento do álbum foram ainda mais fulgurantes e surpreendentes. Sparks, GNR e novos e arrojados arranjos a temas popularizados por Variações como “Estou Além” e “Anjo da Guarda”, todos tiveram lugar na forma dos Humanos. David Fonseca e Manuela Azevedo, ao vivo, quando não estavam a vocalizar as incisivas letras de Variações desprendiam-se na instrumentalização de guitarras, harmónios, beatboxes, sintetizadores e dos mais variados instrumentos de percussão tipicamente portugueses. Mas até o fadista pegou numa viola para fazer ressaltar a melodia acústica de “Muda de Vida”. Difícil escolher momentos altos. Para os Humanos, cujas carreiras individuais são exemplos incontestáveis do talento nacional, esperam-se futuros encontros, ainda que inevitavelmente limitados, dentro e fora da temática de revivescência de António Variações. É que uma banda com tamanha inspiração e genialidade musicais e com uma identidade tão resplandecente não pode terminar aqui. Afinal de contas todos somos Humanos.

DISCOGRAFIA


HUMANOS [CD, EMI, 2004]


MARIA ALBERTINA [CD Single, EMI, 2004]


AO VIVO [CD, EMI, 2006]


HUMANOS AO VIVO [Special Edition] [CD+2xDVD, EMI, 2006]


BANDAS MÍTICAS 18 [CD, Lenoir/Correio da Manhã, 2011]

COMPILAÇÕES


POSTO DE ESCUTA [CD, EMI, 2005]

PRESS
O Cálculo das Improbabilidades, Jorge Mourinha, Blitz 1046 de 30-11-2004
Como Se Fosse Hoje, Luís Guerra, Blitz 1049 de 07-12-2004
Mudar de Vida, Vítor Rainho, Blitz 1079 de 28-06-20056 [CAPA]
Lusco Fusco, Lia Pereira, Revista Blitz 07, 01-2007

5 comentários:

Eduardo F. disse...

Não devemos esquecer que "A Teia", "Adeus" (que me vou embora), "Já Não Sou Quem Era" e "A Culpa é da Vontade" tinham sido já (1989) sido interpretados (e gravados) pela Lena d'Água, no álbum "Tu Aqui".

Até que ponto poderemos desligar as canções e os arranjos que os Humanos fizeram dessas primeiras leituras?

Podemos não saber responder, mas é preciso estarmos conscientes de que havia já algo antes.

Muita gente diz que a Lena canta melhor certas canções. Não é disso que se trata. Apenas de divulgar o facto, e tentar equiparar a fama de ambos os artistas.

Bourbonese disse...

É uma perspectiva bem interessante, sim senhor. Vinda, por certo, de um admirador da Lena. Eu ttambém acho que, por detrás daquela fragilidade toda, está uma grande mulher e cantora.

Eduardo F. disse...

:)

rc disse...

a edição aqui incluída é uma edição especial -deve-se indicar a discografia oficial que é o álbum de estreia e o disco ao vivo + dvd (+cd+2dvd)

rc disse...

A quinta canção gravada pela Lena D'Água aparece no disco "Humanos Ao Vivo". Deveriam ter mantido os nomes das canções adoptadas no disco da Lena d'Água. "Estava eu agora a pensar em ti" vs. "Tu Aqui". No caso destas edições especiais deveria indicar-se que existem versões diferentes dos discos com e sem DVD.