27 junho 2010

RUA DO GIN



Em 1986, a Rua do Gin formou-se como banda em Braga, nascida de vários exercícios embrionários como os Pandemónio que, por si, também já vinham de várias direcções. Teve inúmeras formações, elementos esporádicos, estrelas convidadas como o Carlos Fortes na guitarra, ou até o Pinto Marroquino nas teclas, ambos defuntos membros dos Mão Morta. Um baterista, o Tó, não conta mais entre nós, raparigas também por lá passaram, obviamente, como a Armanda, numa tentativa de pôr um rosto velvetiano ao acontecimento. O Paulo Sombra foi um dos primeiros a conseguir pôr uma voz nesta confusão toda, durante uma ida a Lisboa ("Rebeca"), que há-de ficar nos arquivos para todo o sempre como, vamos ser sinceros, a única vez que se conseguiu pôr este simpático grupo de amigos a produzir algo de realmente interessante. Ainda hoje o mistério permanece. Lembramos a primeira colectânea subsidiada pela Câmara Municipal de Braga, o mítico "À Sombra de Deus" com capa de José Cristóvam. O Alexandre também deixou de ter paciência e um belo dia fez-se à estrada, o baixo às costas como um verdadeiro cowboy rebelde. Um ensaio à tarde, um "mi" mais que tal, e pronto lá se foi uma longa colaboração que datava de muitos anos. É preciso notar mais uma vez que as personalidades em jogo nem sempre se caracterizavam pela sua paciência. Projectos de casamento influenciaram provavel e inconscientemente a decisão da ruptura fatal. Fica no entanto como o baixista que tocava dois ritmos diferentes ao mesmo tempo. O Paulo Trindade era, obviamente, o mentor, dono dos instrumentos, o timoneiro da barca negra na sua deriva por águas turvas. Também principal compositor, guitarrista inspirado e voz secundária, ou principal, conforme as marés e as andanças. Bateristas passaram muitos pela banda: Berto Borges (Rongwrong), António Rafael (Mão Morta), Tó, que já não conta entre os vivos, e o Manuel Leite (Rongwrong). Enfim, o verdadeiro baterista que se manteve mais de duas semanas no grupo sem que houvesse conflitos, foi a Yamaha R7 ou R11, o único elemento do grupo que conseguia tocar sem levantar a voz. Baptizada de Casa das Máquinas, a única que conseguia manter o ritmo infernal contra a maré muitas das vezes tumultuosa. Falta o Tó Animal (Um Zero Amarelo), figura de proa e voz principal durante alguns tempos. Ligeiramente cabeludo e caveiano, afirmou-se como voz a seguir ao Paulo Sombra. Com o Tó, as letras ficaram ligeiramente mais engagé. A princípio eram quatro, Paulo Trindade (voz, guitarra), Manuel Leite (bateria), Jorge Moreira (guitarra) e Rui Mendes nas teclas, na bateria e depois no baixo, passaram a três no concerto da Artenata no Liceu Sá de Miranda, a estreia, a seguir os membros saíam e entravam conforme a disposição e o grau de paciência. Uma faixa, "A Casa em Frente" foi gravada no Porto, para entrar num 7"EP de quatro músicas, sendo um dos lados com duas bandas portuguesas, e outro com bandas espanholas editado pela Facadas na Noite. Reza a lenda que as fitas desapareceram antes de serem publicadas, o que viria a tornar-se uma história de desconfiança. Em 1993, o Paulo Trindade conseguiu fundos para a gravação do único álbum da Rua do Gin. A última gravação que iria acabar com o grupo, tal como o conhecíamos. Fez-se uma primeira mistura da autoria do técnico de som, do Paulo Trindade e do Jorge Moreira, mistura essa bastante dura e muito mais representativa do som do grupo que a segunda, feita pelo Paulo Trindade e uns produtores estrangeiros que ele contratou. [Jorge Moreira]

DISCOGRAFIA


A CASA EM FRENTE [7"EP, Facadas na Noite, 1990]

COMPILAÇÕES


À SOMBRA DE DEUS 01 [LP, Câmara Municipal de Braga, 1988]


À SOMBRA DE DEUS 02 [CD, BMG, 1994]

CASSETES
Demo Tape 1988 [3 Temas, 10:02]
Demo Tape 1990 [1 Tema, 05:36]
Demo Tape, Viana do Castelo, 1993, Versão Inicial
Demo Tape, Viana do Castelo, 1993, Versão "Censurada"

PRESS
O Barulho dos Néons, Miguel Francisco Cadete, Blitz nº271 de 09-01-1990

7 comentários:

erradiador disse...

este texto, que já tinha lido na sua versão original/integral no blogue do J. Moreira, tem o problema de ser pouco claro e linear, mesmo para quem está relativamente familiarizado com a história da banda. gosto muito das coisas que o Moreira escreve, mas ele fá-lo de forma torrencial e com pouca ou nenhuma edição e isso, por vezes, retira clareza ao escrito. será fácil dar uma volta ao texto para lhe dar uma melhor apresentação. mesmo alguns erros do texto original são aqui repetidos, a título de exemplo: -"À Sombra de Deus" com capa de José Cristóvão - na realidade a fotografia da capa é de José Cristóvam; - "durante uma ida a Lisboa ("Rebecca")" - na realidade a música chama-se "Rebeca".
m.cumps.

Bourbonese disse...

Correcções efectuadas e crédito atribuido. Obrigado pelo olhar atento. Relativamente ao texto, sou de opinião diferente: acho que o seu brilhantismo deriva disso mesmo, do facto de ter sido escrito como quem narra a história na primeira pessoa e como se fosse a última coisa que se fará numa vida...

asianuxxx disse...

Ok, ok. Isto foi escrito também de maneira a não dar muitos pormenores pessoais, e deixar um "je ne sais quoi" de mistério e ambiguidade, dando apenas algumas pistas para a solução do problema. Isto porque as pessoas envolvidas têm feitios e personalidades, e às vezes as relações entre elementos de um grupo podem ser muito mais complexas do que parecem apreciadas de fora. A Rua do Gin sempre foi muito caótica em termos de relacionamentos, e quem conhece a música que se fez, logicamente verá que isso se reflete.
Este texto foi escrito para encher certas lacunas, mas pelos vistos também pode levantar outras perguntas. Vi, viví e relatei a coisa vista de dentro, e sem o olhar astuto e sem a máquina das etiquetas de um crítico de rock, que acabam sempre por ser os animais preferidos de um músico.
Agradeço o vosso interesse e o vosso trabalho acerca do nosso trabalho, e agradeço terem mantido o texto original. Não tenho nada contra editores, desde que seja feito em parceria e baseado num diálogo mútuo. No entanto, fui despedido uns anitos atrás por ter mandada a minha editora f.... Era social-democrata e assinava uma revista chamada Combate de um tal Francisco Lousã, e o uso do lápis vermelho deveria pertencer a outra geração que esta.
Obrigado e parabéns pelo site.

Bourbonese disse...

Confirmo um ponto, que não deverá ser origem de desconfianças: as masters foram mesmo roubadas quando estavam em trânsito para Barcelona, local onde iria ser prensado o disco. Pagamentos já efectuados, facturas já emitidas, não habia volta a dar: ou ficar sem o dinheiro ou editar o vinil a partir de uma cassete manhosa. para o bem ou para o mal: optou-se pela segunda alternativa. E isto confirmo porque fui eu o editor! Tudo o que se possa dizer a mias - inclusive a lenda de que foram os Mão Morta a perturbar o circuito - é mentira!

asianuxxx disse...

Ok devem ser boatos da reaçcão. Vou retificar o texto. Deves reconhecer que esta história toda destrui grande parte do bom relacionamento que existia, entre os aficionados da altura, em Braga.

asianuxxx disse...

O texto foi alterado. Se quiseres mudar o teu... Foram este tipo de episódios entre outros, que fizeram com que a gente odiasse o Beco das Ginjas, e que nos levaram a abandonar o barco pouco a pouco (quando não era o Paulo).

asianuxxx disse...

Videos para o pessoal:

Sanguesuga
http://www.youtube.com/watch?v=67yHqlfalZM&feature=relmfu
A casa em frente
http://www.youtube.com/watch?v=BANuJZa9Whc