26 setembro 2010

MOLA DUDLE



Os Mola Dudle surgiram no ano 2000, resultando da parceria criativa entre Miguel Cabral (vozes, órgão de brinquedo, percussão, bateria, guitarras, bandolim, banjo, flauta, programações, objectos, captação de ambientes) e Nanu (vozes, teclados, guitarras, programações, samplers, objectos, captação de ambientes). Partindo de dois conceitos unificadores - a ‘casa’ e a ‘distância’, compuseram o seu disco de estreia “Mobíla”, editado em 2000 pela Ananana. A distância que separava fisicamente os dois músicos - Nanu residia em Sintra e Miguel Cabral em Tavira -, não foi um obstáculo, pois integraram-na no processo de composição do disco que resultou da troca de cassetes através do correio para serem trabalhadas e alteradas pelo outro, numa espécie de jogo em que cada um procurava surpreender o parceiro. Utilizando todo o tipo de sons que se podem encontrar dentro de uma casa, como cadeiras, máquina de barbear, canos, portas, relógios, estores, talheres, colchões, água, torradeira, moinho de pimenta, etc., construíram 25 micro-canções representativas de diversos objectos do quotidiano doméstico e das atmosferas de casa – varanda, cozinha, etc. Recorreram às programações, mas também a instrumentos mais convencionais. Conceberam o disco oscilando entre a ideia de música artesanal, a canção e a utilização de suportes sonoros transmitidos à distância, por telefone ou correio - uma das faixas do disco (‘300 km.’) foi completamente concebida ao telefone. Cada um dos músicos desenvolveu uma base que o outro modificou posteriormente até chegarem ao resultado final. A crítica especializada referenciou influências da estética da editora Recommended, dos Biota, Negativland, Frank Zappa e a electrónica lúdica de alguns autores do selo alemão a-muzik, embora todas estas influências muito digeridas e mitigadas pelos Mola Dudle. Explorando as possibilidades do trabalho em estúdio doméstico, construíram um disco fragmentário repleto de paradoxos: tecnologia/bricolage, melodia/ruído, surpresa/cliché, casa/distância. As apresentações ao vivo do disco de estreia caracterizaram-se pela presença do humor, forte sentido lúdico, muita criatividade e improvisação, fosse pela desconstrução das estruturas convencionais do pop/rock, pelos instrumentos inusitados construídos ou modificados pelos músicos e pelos devaneios em cima do palco. Em 2003, editaram o segundo disco “O Futuro Só Se Diz Em Particular”, novamente pela editora Ananana. A sonoridade deste álbum difere bastante do anterior, aproximando-se mais do formato da canção pop. Nanu assume neste disco uma maior preponderância, ao mesmo tempo que o novo elemento do grupo Miguel Leiria Pereira em contrabaixo, tem também papel de destaque, ao passo que Miguel Cabral se remete a uma contribuição muito mais discreta que no disco anterior. Explora-se a sonoridade do contrabaixo e da voz, mantendo-se o uso de samplagens. “O Futuro Só Se Diz Em Particular” teve como conceito unificador os anos vinte do século passado e algumas imagens de marca desse período – a rádio, o cinema, a moda e o glamour, cabaret. Os textos das canções são, muitas vezes, excertos de publicações femininas e literatura de cordel, e de filmes dessa época, dando às 12 faixas que compõem o disco, um toque retrofuturista. Observa-se uma mistura de estilos e referências que vão da chanson à valsa, da música clássica à pop, da electrónica ao funk. Neste disco, os Mola Dudle contam com diversas colaborações de peso como Manuela Azevedo, Armando Teixeira, Marco Franco, Fernando Guiomar, Rini Luyks e Mário Barreiros na produção. Músicas como ‘Diva’ e ‘Árvore’ chegaram a ter alguma repercussão nas rádios mais alternativas. Nas apresentações ao vivo, a formação de palco era: Nanu (voz e guitarra), Matze (teclados, guitarra e voz), Diogo Dias (contrabaixo), Miguel Cintra (bateria e voz) e Margarida Moreira (voz/actriz). Os Mola Dudle foram também a banda residente no programa exibido na RTP 2, ‘A Revolta dos Pastéis de Nata’ apresentado por Luís Filipe Borges. [Erradiador]

DISCOGRAFIA

MOBÍLIA [CD, Edição de Autor, 2000]


MOBÍLIA [CD, Ananana, 2000]


O FUTURO SÓ SE DIZ EM PARTICULAR [CD, Ananana, 2003]

COMPILAÇÕES


PROMÚSICA 42 [CD, Promúsica, 2000]

PRESS
Destaques, Promúsica 42 de 06-2000
Novos Rumos, Fernando Magalhães, Público, 03-11-2000
Mobília de Alta Fidelidade, Fernando Magalhães, Público, 06-12-2000
Música Avariada, Luís Guerra, Blitz nº 841 de 12-12-2000
Mobília, Correio da Manhã, 09-01-2001
Mobília, Fernando Magalhães, Y - Público, 12-01-2001
Homens da Casa, Fernando Magalhães, Público, 19-01-2001
Prata da Casa, Rui Eduardo Paes, Promúsica nº50, 03-2001
Novas Músicas, Rui Eduardo Paes, Jornal de Letras, 21-03-2001
Em Entrevista, Alexandre Martins, Raio X nº 54 de 11-2003
Regresso ao Futuro, Catarina Sacramento, Blitz 996 de 02-12-2003
O Futuro está Presente, Ricardo Rainho, Rock Sound nº 17 de 04-2004
O Presente de Natal, Gonçalo Palma, Blitz 1049 de 07-12-2004

4 comentários:

Eduardo F. disse...

Humm... um de Sintra, outro de Tavira... Onde se encontraram e se fez clique para surgirem os Mola Dudle?

É importante: pode dizer-nos algo.

Algum amigo sabe?

erradiador disse...

"Conheceram-se em Lisboa e tocaram pela primeira vez juntos ao vivo no Bairro Alto. "Uma coisa experimental, sem ensaios, sem nada". O telefone fazia, já então, parte dos seus utensílios de trabalho. "Trocámos impressões". - Fernando Magalhães, Público, 19 Janeiro 2001.

Eduardo F. disse...

Preciosa informação, erradiador.

Obrigado.

Anónimo disse...

Antes de mais um obrigado pelo interesse que têm nos Mola Dudle.
É verdade, os primeiros passos dos Mola surgiram depois de algumas incursões em música improvisada no Bairro Alto, num projecto de nome Froek Zinn.

Havia a vontade de fazer da distância uma potêncial matéria de trabalho. O Miguel tinha apetência pelos instrumentos artesanais inventados e eu pelos universos da rádio e as sonoridades "vintage". Ambos encontravamos um espaço para desenvolver as nossas electrónicas
sem barreiras. Foi um feliz encontro. Ganharam as ideias!

Um abraço a todos,

Nanu (Mola Dudle)