06 novembro 2010

PINHEAD SOCIETY



Para reavivar o espírito de finais da década de 90, inclinei-me para "Kings of Our Size", uma pequena doçura desse Portugal perdido pelo fim do milénio; disco perdido algures entre as edições do ano de 1998 - perdido não, certamente. Corre-se "Kings of our Size" de uma ponta à outra e o sentimento de surpresa, com tamanha sinceridade, tamanha ingenuidade provocada por uma juventude cheia de vontade e sangue na guelra, é indisfarçável: bons momentos com Pinhead Society. De existência meteórica como tantos outros projectos da moderna música portuguesa, os Pinhead Society foram - infelizmente - pouco mais do que um ar que se lhes deu; cheio, intenso, promissor, do nascimento à edição, daí à extinção, quase sem se dar por ela... Apenas com este álbum editado (mais uma cassete pela Bee Keeper e o CDS da caixa "Tripop", repartida com os Azul em Chamas e os Monsterpiece), os Pinhead Society conseguiram criar o burburinho suficiente capaz de lhes conferir por momentos a auréola de salvadores da via indígena do rock alternativo luso. Tinham razão; mas também se enganaram, a pressão pareceu demasiada. Ainda assim, Mariana Ricardo (vocalista, guitarra, mais tarde nos Munchen), Joana de Sá (baixo), Nuno Pessoa (bateria) e André Ferreira (guitarra), ofereceram-nos este fresco e marcante "Kings of our Size", um disco capaz de dar ao rock alternativo uma cor pop, arrastando consigo um conjunto de melodias simpaticamente apaixonantes, serenamente acamadas na espirituosidade das guitarras - sempre as guitarras, de riff em riff. Confesso, chega a ser comovente, como a jovem banda lisboeta consegue com uma subtileza de enaltecer, fazer as canções esvoaçar, livres, com simplicidade, agilidade, com modernidade. Quase sem se expandirem para territórios mais agitados, preferindo quase sempre cenários mais suaves, os Pinhead Society marcaram uma época - ainda próxima - com o seu rock melódico, melancólico e sedutor, denotando desde logo, este disco, uma coesão estrutural apreciável - uma referência especial para a belíssima orquestralidade de "A Cockle in the Shell"; sem esquecer também "Long Distance Callers". Eléctrico. [Rui Dinís]

DISCOGRAFIA


HAVE YOU SLEPT WITH YOUR TV SET [Tape, Bee Keeper, 1995]


STRESS, BLAH, BLAH, BLAH [CD, Música Alternativa, 1996]


KINGS OF OUR SIZE [CD, Candy Factory, 1998]

COMPILAÇÕES


TEENAGERS FROM OUTER SPACE [LP, Bee Keeper, 1995]


THIS IS NOT A DAMAGE FANCLUB TRIBUTE [CD, Bee Keeper, 1996]


CAIS DO ROCK 02 [CD, Low Fly Records, 1998]

PRESS
Um Filme chamado Adolescência, Miguel Cadete, Blitz nº 583, 02-01-1996 [CAPA]
Portugal dos Pequeninos, Pedro Gonçalves, Blitz nº 627 de 05-11-1996
O Umbigo da Questão, Rui Catalão, Pop Rock/Público nº 2446 de 20-11-1996
Reis Magos, Pedro Gonçalves, Blitz nº 723 de 08-09-1998
Pequenas Canções Entre Amigos, A.Oliveira, Raio X nº 11 de 16-09-1998 [CAPA]
Do Lo-Fi à Maturidade, Patrícia Lemos, Promúsica 24 de 01-1999
Pinhead Society mudam de Editora, Blitz nº 803 de 21-03-2000

2 comentários:

nato disse...

"Whatever" na compilação "Educa-te Cão": Mas se os Pinhead Society não sabiam muito bem o que pensar, já alguns dos que assistiram ao concerto formavam ideias concretas sobre o valor da banda. Além de posarem para umas quantas fotografias, foram abordados «pela Elsa do fanzine `Icecream Star' e pelo João Paulo Feliciano dos Tina and The Top Ten». Ambos se revelaram interessados em colaborar com a banda e uma maqueta a gravar lá para Julho é o primeiro resultado prático destes contactos.
Os Pinhead Society formaram-se apenas há um ano e começaram por fazer música substancialmente diferente da que tocam agora. «Fazíamos umas músicas assim de rock mais lamechas para uns textos que tirávamos do livro de Português da escola», confessam Joana e Mariana. Mas, como todas as bandas, foram evoluindo e agora navegam por outros mares. «Nós gostamos dos Sonic Youth, dos Nirvana, dos Pavement, dos Boo Radleys, dos Pixies... Podem influenciar-nos mas não fazemos aquilo chapado. Até já há pessoas que dizem que temos um som próprio. Eu não sei se já temos, mas de qualquer maneira havemos de ter», diz André.
Para além da maqueta que irão gravar, vão ter um tema seu incluído numa colectânea de novas bandas denominada «Educa-te cão», «que é sobre o estado da educação em Portugal». «Alguns grupos têm temas abertamente antiestado da educação, o nosso não tem muito a ver com isso», explica Nuno.
Depois... depois, estão ansiosos por novos concertos e por conhecerem mais bandas. «É preciso haver união das bandas», dizem, para se conseguir fazer alguma coisa. Para se dar o segundo passo, já que o primeiro, tocar aqui e ali, é fácil. O complicado é gravar e manter o grupo a andar. Só agora começaram, mas já vão sendo avisados: «Por quem sempre nos tem apoiado.»

Público, 1995

Bourbonese disse...

Obrigado pelo complemento. Não haverá para aí material que se possa "scanar" sobre a editora?