19 fevereiro 2011

ENCICLOPÉDIA DA MÚSICA EM PORTUGAL NO SEC.XX



Enciclopédia da Música em Portugal no Sec XX
Direcção de Salwa Castelo-Branco, Círculo de Leitores, 2010
Há já bastante tempo que preparo esta entrada. Preferi amadurecer as ideias que fui elaborando sobre esta extensa obra, publicada em quatro volumes pelo Círculo de Leitores e que actualmente já se encontra à venda no circuito comercial. Sob direcção de Salwa Castelo-Branco, muitos colaboradores participaram com entradas sobre alguma da música e músicos que fizeram a História em Portugal no Século XX. Estando o meu foco centrado naquilo que gosto de apelidar de música urbana - mas sendo um relativamente bom conhecedor do que foi sendo feito noutras áreas -, fiquei, logo de início, desiludido com a deficiente abordagem à música vulgarmente apelidada de rock, desde a sua vertente pop à área de maior pendor experimentalista, não esquecendo outras vertentes como o jazz, a soul ou os blues. Fiquei com a impressão que o trabalho contou com colaboradores mais competentes nas áreas do fado, da música ligeira ou até da música de raíz tradicional. O fenómeno que me interessava ficou, assim, reduzido a entradas e abordagens pouco conclusivas, algo pobres ou incompletas. As entradas resumem-se aos projectos mais comercialmente mainstream, sem que se detectem traços de qualquer nova informação que pudesse resultar de uma investigação que se anunciava tão longa e preocupada. Nota-se, por parte dos autores e de quem os dirigiu, a preocupação de dar ao trabalho um cunho científico e rigoroso. Porém, esse pendor não podia nem devia ter ficado pelos índices temático e onomástico... Mesmo quando, quem escreve alguns dos textos, é certamente conhecedor dos fenómenos e projectos sobre os quais escreve, o trabalho aparenta ter ficado a meio, o que não é admissível para quem reclama um tão elevado grau de exigência. Dou um exemplo: a entrada sobre os Capitão Fantasma - uma das poucas sobre um grupo catalogado como mais independente -, foi elaborada por Miguel Newton, o conhecido vocalista dos Mata-Ratos, que também colabora na obra. Esperava-se algo rigoroso, dado o perfil e trajecto do escriba. Pois enganem-se os leitores! O grupo é catalogado como pop-rock e a sua discografia fica-se pelo primeiro álbum, "Hu Uá Uá", de 1992, ou seja, editado há quase 20 anos! Curiosamente, na entrada sobre o "Punk" em Portugal, elaborada de forma cuidada e assertiva por Miguel Almeida, há referência ao álbum "Contos do Imaginário e do Bizarro", de 1995. Sobre música de caractér mais avantgarde ou alternativa não se encontram praticamente quaisquer referências, o que não deixa de ser algo incompreensível e até preocupante. Não há, por exemplo, qualquer referência aos Osso Exótico, entre inúmeros outros projectos deveras importantes na música experimental da viragem do século (pelo menos lembraram-se dos Telectu!). A música não se faz ou fez apenas nos catálogos das editoras multinacionais ou nas páginas dos jornais comercialmente viáveis. De qualquer forma, é de louvar o esforço e, dada a larga abrangência que se procurou imprimir à obra, seria inevitável o confronto com este tipo de limitações. Trata-se, apesar de tudo, de uma valiosa resenha compilatória de informações históricas que andavam dispersas e que, uma série de pessoas mais determinadas, tem vindo a compilar ao longo dos tempos, quer em livros muito pontualmente editados quer, mais recentemente, sob a forma de blogues.

2 comentários:

ARISTIDES DUARTE disse...

Não há nenhum livro sobre esta temática que não contenha erros (e eu que o diga!), até porque mesmo contactando os protagonistas eles não têm memória de tudo. Para além dos referidos, descobri mais alguns erros, nquilo que li, desta obra em quatro volumes. Mas não deixa, por isso, de ser uma obra essencial.

Bourbonese disse...

Eu diria que o problema reside mais nos critérios que presidiram à concepção da obra que nos erros. De qualquer forma partilho a ideia de que tudo o que seja editado encerra sempre valor acrescentado. Nunca percebi o porquê de se algumas facções falarem tão mal da obra "A Arte Eléctrica de Ser Português" de A.Duarte quando a considero, apesar de todos os erros contidos, que foi ela que permitiu que toda uma geração tenha podido saber algo do que se havia feito antes do chamado Boom de 80.