16 junho 2012

AS CAPAS DOS DISCOS

“…Ao pegar numa série de discos editados durante os anos 80, e que testemunham essa vanguarda cultural que se desenvolve em Lisboa, mas também em Coimbra, no Porto ou em Braga, dei-me conta de que não conhecia a maioria dos nomes que assinam o design gráfico desses discos e que os poucos que conhecia, efectivamente conhecia mal, refiro-me a nomes como José M. Cruz e Silva, Marco S. S., Jorge Santos, Fernanda Gonçalves, Jean Jacques ou José Júlio Barros.


ENCOUNTERS [c/Saheb Sarbib] [LP, Alvorada/RT, 1979]

Por exemplo, não conheço quem fez o design gráfico do disco “Encounters” de Jorge Lima Barreto ou do “Espírito Invisível” dos Mler Ife Dada, ambos trabalhos fabulosos.


ESPÍRITO INVISÍVEL [LP, Polygram, 1989]

Vinte anos depois, se é fácil reconhecer influências (nomeadamente a linguagem desenvolvida por Vaughan Oliver para a 4AD) também é possível identificar alguma identidade, resultante, muitas vezes, da combinação DIY de técnicas e meios, como forma de responder criativamente às limitações de orçamento.


MÚSICA MODERNA [LP, Da Nova, 1979]

Talvez o design gráfico das capas de muitos discos produzidos em Portugal nos anos 80 e início de 90 ilustre melhor o que é o design (neste caso gráfico) português, melhor do que a exposição “Design & Circunstância”, a “Lusitânia” ou, mais próxima de nós, a primeira Experimentadesign. Há neste design DIY, por vezes anónimo, desapoiado, por vezes toscamente “trendy” outras vezes surpreendentemente original, um retrato muito aproximado do design português, que me parece, vinte anos decorridos, manter-se actual.


DEFEITOS ESPECIAIS [LP, EMI-VC, 1984]

Do boom do rock português do início da década de 1980 e dos anos que se seguiram, não guardamos o nome de nenhum designer ao qual possamos chamar de “nosso Vaughan Oliver” ou “Peter Saville português”.


THE EYE DECAY THEORY [LP, Johnny Blue, 1991]

Os nomes que encontramos creditados pelo design das capas dos discos parecem, desde logo, prometer o pior, entre outras, por três razões: ou não são suficientemente sérios para serem levados a sério: nomes como Ni, Licas, Xico Z. ou Vitinha este último ligado aos Rádio Macau; ou são demasiados sérios para serem levados a sério: como os aristocráticos Bernardo de Brito e Cunha, que trabalhou com os UHF, e António Campos Rosado que trabalhou com os Heróis do Mar; ou soam demasiado ao nome de uma empresa de import&export: vejam-se os exemplos de Azinheira F&S ou Ana Cristina B.P.F que desenhou a capa do 78-82 dos Xutos e Pontapés. Que o design talvez não fosse, naquele contexto, assim tão importante, percebe-se igualmente por três factos: um número muito significativo de capas de discos não apresentam a identificação do autor, como se o design fosse coisa menor para ser creditado; ou, por outro lado, têm demasiados autores, como se um só não fosse suficiente para fazer um bom trabalho. A capa do Anjo da Guarda (1983) de António Variações é um bom exemplo, sendo o trabalho gráfico creditado a António Variações, José Manuel Cruz e Silva, Rui Gonçalves, Francisco Vasconcelos e David Ferreira.


ANJO DA GUARDA [LP, EMI-VC, 1983]

Ou, então, são os próprios músicos a desenhar a capa. Assim acontece com as capas dos Beatniks e dos Interface, com as capas dos Go Graal Blues Band (algumas interessantes) desenhadas pelo baterista Raúl B. Anjos ou com algumas capas dos UHF concebidas pelo vocalista António Manuel Ribeiro.


GO GRAAL BLUES BAND [LP, Imavox, 1979]


WHITE TRAFFIC [LP, Vadeca, 1982]

O paradigma desta lógica de acumulação é dado por Pedro Ayres Magalhães que colabora no disco Sonho Azul de Né Ladeiras como compositor, letrista, responsável pelos arranjos, multi-instrumentista (toca sintetizador, caixa de ritmos, guitarra clássica e baixo), produtor e designer gráfico. Convém realçar que, em boa parte das vezes não creditar o trabalho gráfico é perfeitamente justificável, vejam-se as capas de Caminhando (1983) dos Da Vinci ou Guardador de Margens (1983) de Rui Veloso, trabalhos que muito poucos teriam coragem de assumir. Analisada a partir da perspectiva da indústria discográfica dos anos 80, a história do design gráfico português torna evidente vários aspectos. Percebe-se uma certa fidelidade das bandas aos seus designers (como os discos dos Ananga Ranga sempre da autoria de Pedro Freitas ou os dos Táxi (com algumas soluções inovadoras) criados por José Júlio Barros); reconhece-se uma clara rivalidade entre as grandes editoras e seus designers (José Júlio Barros na Polygram; José M. Cruz e Silva na Valentim de Carvalho) ao mesmo tempo que editoras independentes trabalham com os seus designers underground como Rogério Bold da Rádio Triunfo ou Victor Lages. Apesar da indústria discográfica portuguesa ser pequena, alguns designers tiveram oportunidade de criar capas de discos a um ritmo intenso. O caso mais evidente talvez seja o de José Júlio Barros que entre 1981 e 82 assinou, entre outras, as capas de Tripas à Moda do Porto dos Trabalhadores do Comércio, Táxi dos Táxi, Danza dos Arte&Ofício, o interessante Oito Encomendas discriminadas no verso dos C.T.T. e Cairo dos Táxi. Este género de produção gráfica permanece por estudar e embora muitos dos autores de capas de discos não fossem designers gráficos profissionais (alguns dos nomes mais activos dessa época, artistas ligados às editoras, como José Julio Barros, vinham da pintura e seguiram por essa via) encontramos ali um universo gráfico tão desequilibrado quanto sedutor.


HANDS OFF [LP, EMI-VC, 1985]

Desse período ficaram-nos capas de discos boas (como Hands Off dos Zoom desenhada por Fátima Rolo ou quase todas dos Mler Ife Dada), outras francamente más, outras estranhas (como a maioria das editadas pela Rádio Triunfo), outras pirosas (em discos do Tantra, Jarojupe ou Iodo). Numa diversidade que, afinal, não deixa de caracterizar o design português de então.


PECADO MORTAL [7"Single, Horizonte, 1985]

[Texto retirado de Reactor-Reactor.blogspot.pt]

4 comentários:

rdr disse...

Falta o Jorge Colombo. Aqui nos comentários poderíamos reportar outros e até responder a algumas dúvidas levantadas pelo articulista.

Anónimo disse...

As capas do 1º Tarantula e do Panchito são qualquer coisa! Levam o mau design a um novo nível...

ghost disse...

"Encounters", foi feita pelo Dario Alves do Porto (está na ficha técnica se não me engano) e é muito próxima da pintura dele. Tenho uma entrevista com o Dario Alves feita no âmbito do curso de design onde ele fala deste trabalho =)

rdr disse...

No mesmo blog dos dois textos aparece uma referência a Dario Alves http://reactor-reactor.blogspot.pt/2008/04/dario-alves-designer-num-texto-recente.html