20 outubro 2012

NIGGA POISON



“Foi a faixa destes niggas na colectânea Poesia Urbana (Horizontal; 2004) que me fizeram comprar o álbum de estreia - apesar de já conhecer o CD-EP Podia Ser «Mi» (edição de autor; 2001). Na colectânea, o seu tema metia as outras 12 participações num canto, tal era a misturada hiper-energética de HipHop, Ragga, Kuduro, quase a roçar para um Punk Digital - cena marada mesmo! No furor dessa descoberta atirei-me a estes Resistentes sem pensar... e... desilusão! Problema n.º 1, antes de mais parece uma caderneta de cromos invés de um álbum: há Hip Hop francês, há Reggae, há Dancehall, há R'N'B, há Hip Hop (claro, é uma banda de Hip Hop) ora old school ora new school... Ou melhor: há uma faixa de Hip Hop francês (Julgado pela Aparência), há uma ou duas de Reggae (Fazes parte deste mundo com uma participação dos nojentos Terrakota), há uma de R'n'B (a pior do disco: Onde é que estás?), há uma faixa de Hip Hop a lembrar a barulheira dos Public Enemy (Alas ta ben, o melhor do disco?), há uma faixa de Kuduro (yes man - esta é que é a melhor do disco mas longe da tal da Poesia Urbana, infelizmente esta é mais básica), etc... ou seja, a lógica é de ir a todas sem arriscar fundir os géneros - como fizeram, novamente, na tal música da Poesia Urbana - e por isso sem inovar um milímetro. O álbum é mau por isso? Não, há obviamente música boa e bem produzida, cantada/rapada em crioulo (efeito porreiro de se ouvir em qualquer receptor de lusofonia) como também há momentos para esquecer para sempre. O que não se percebe é como não há uma direcção, uma ideia para não serem mais uns no meio da música portuguesa. Numa altura que Buraka Som Sistema provou - finalmente! - que há um nicho de mercado para música africana ou luso-africana, é estranho os Nigga virarem-se para o Reggae (que já deve ter os seus dias contados enquanto moda) ou para a "MTV". Como o camarada Seringa uma vez escreveu, em Portugal quando saí um disco de um som que tenha estado na moda vêm sempre com 5 anos de atraso e geralmente é uma merda. Acho que Portugal já diminuiu esse parâmetro para 2 anos e já não é uma merda total. Mais uma geração e pode ser que a música feita neste país de coninhas seja qualquer coisa de jeito. Até lá ouvimos na faixa A Nós é real alguém a perguntar aos Nigga Poison - «agora vocês andam a cantar comercial»... Pois... Na Sexta passada, os Nigga Poison deram um concerto na Musicbox para lançar o seu terceiro álbum. Casa semi-vazia - pudera, o bilhete era a 10 euros (?) - e mesmo com o disco grátis à entrada, não se conseguiu a festa que o disco pede. Talvez as pessoas saibam que não vale a pensa ir à Musicbox porque esta casa tem uma acústica de merda, ou porque o concerto estava marcado à meia-noite (e não haja transportes públicos para os subúrbios) ou talvez apenas porque os Nigga Poison chegaram a um disco de "terra de ninguém" que deve ter afastado os fãs de Hip Hop ao mesmo tempo que ainda não atraiu o público mais generalista. A verdade é que de Hip Hop este disco nada tem, em 10 temas encontramos dois temas de Reggae/ Dancehall, um Jungle raggazado com cítara (ripanço total a Asian Dub Foundation), três temas de Kuduro e um dancehall voodoo (Sentimentu Klaru, grande tema!). Sobra... um Hip Hop Snoopy à canzana e outros dois "normais". Que se lixe o Hip Hop, se só o Nerve, Halloween (álbum do ano?) e Ex-Peão conseguem fazer algo de jeito mais vale investir noutras áreas que aliás os Nigga Poison já deram entender que poderiam ser geniais - refiro-me a Ke ki rapasis kre?, talvez o melhor tema de música urbana alguma vez gravada em Portugal, perdida numa colectânea medíocre e nunca regastada pela banda noutro registo nem (pelos vistos) ao vivo. Mas ao contrário do tema referido ou outros cabo-verdeanos Blackside capazes de fazer fusão de estilos, os Nigga não conseguem sair do "cada tema um estilo musical" o que faz pensar que eles não se esforçam muito, o que é mesmo uma pena. Nigga Poison apesar da confusón-confusón que vivem ultrapassam o último álbum de Buraka Som Sistema - não é muito dificil, o último de BSS consegue ser mais estúpido que o Kuduro angolano mesmo quando um dos BSS seja cronista no Público. Confusón-confusón, rewind. Escrevia que os Nigga apesar da sua falta de direcção conseguiram fazer um disco bastante bom com temas fortes que mostram um cosmopolitismo que não existe em Portugal de forma oficial mas que existe numa série de cidadãos. Para quem achar isto hermético, eis uma ideia do nosso Apocalipse: este fim-de-semana o Fado foi reconhecido como Património Mundial, ou seja, teremos mais histeria oficial e investimento unidireccional neste género, reforçando o cliché que Portugal é "Fado, Futebol e Fátima". Teremos de aguentar com esta porra reaccionária e fascista porque ela será a única coisa que as editoras irão apostar, para já não falar no espaço que o género irá ocupar em rádios, TV e eventos públicos e privados. O lado urbano contemporâneo não vinga porque é como uma prostituta junkie controlada por um sistema ilusório de "star system" instigado pelas empresas de telecomunicações. Paranóia? Teoria da conspiração? Basta observar: a TMN que tem uma sala de espectáculos em Lisboa, todas elas patrocinam festivais de música, possuem estações de rádio (!) e a Optimus edita quase todos os discos de música portuguesa que não seja o Fado. As fadistas também eram umas putas há 100 anos e agora são património mundial, teremos de esperar 100 anos para os Nigga Poison serem reconhecidos como a grande música do século XXI?" [Marcos Farrajota – Chili Com Carne]

DISCOGRAFIA

PODIA SER «MI» [CD, Edição de Autor, 2001]


RESISTENTES [CD, Very Deep/Som Livre, 2006]


SIMPLICIDADI [CD, Optimus Discos, 2011]

COMPILAÇÕES


INOXIDÁVEL [CD, Raska, 2004]

POESIA URBANA [CD, Horizontal, 2004]


ACORDA! NOVA MÚSICA PORTUGUESA EM MP3 [CD, Cobra Records, 2006]


NAÇÃO HIP-HOP 2008 [CD, iPlay, 2008]

HIP-HOP SERIES 01–SELECTED BY DJ BOMBERJACK [CD, SóHipHop, 2010]

PRESS
Quase Famosos, Miguel Dias, Revista Blitz 04, 10-2006

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