09 dezembro 2012

BESTIÁRIO ILUSTRÍSSIMO


Bestiário Ilustríssimo
Rui Eduardo Paes, Chili Com Carne, 2012
A primeira vez que li os escritos de Rui Eduardo Paes foi nas páginas do jornal semanário Blitz em princípios dos anos 90. Durante meia dúzia de semanas, sob a designação de “Bestiário Ilustríssimo” Rui Eduardo Paes desfiou de A a Z toda uma galeria de personagens que despertou a minha atenção para inúmeros músicos (compositores e interpretes) que desconhecia completamente. Os textos de Rui Eduardo Paes publicados no Blitz foram um bálsamo que mitigou a perda provocada pela saída do crítico Fernando Magalhães para o jornal Público que estava a nascer, na medida em que os seus textos eram também muito fundamentados e altamente desafiantes. Desde essa altura, Rui Eduardo Paes tem desenvolvido uma intensa actividade enquanto crítico, escritor, editor da revista Jazz.pt, divulgador e ensaísta em diversas publicações nacionais e estrangeiras. Publicou livros como Ruínas (1996), A Orelha Perdida de Van Gogh (1998), Cyber-Parker (1999), Phonomaton (2001) e Stravinsky Morreu (2003). Estes livros serão hoje praticamente impossíveis de encontrar em livrarias, pois foram todos publicados pela extinta editora Hugin, mas continuam a valer muito a pena serem procurados em alfarrabistas e feiras de livros em segunda mão. Quando soube que iria ser publicado um novo livro de Eduardo Paes repescando o título de “Bestiário Ilustríssimo”, pensei que o livro seria organizado da mesma forma dos artigos publicados no Jornal Blitz, mas agora numa versão aumentada e actualizada. Não foi isso exatamente o que aconteceu, embora o livro esteja imbuído do mesmo espírito, reunindo meia centena de ensaios das mais diversas proveniências, desde artigos publicados na imprensa e na internet, folhas de sala, guiões de conferências, etc. Os textos incluídos no livro reflectem as temáticas recorrentes na obra de Eduardo Paes: a relação da música com as outras artes, a utilização da tecnologia, a experimentação, a improvisação/composição, o não-conformismo estético. Em coerência com estas premissas, o autor convidou Joana Pires a desenvolver um conjunto de desenhos que complementassem os textos apresentados. As personagens que habitam o livro provêm das mais diversas áreas, da filosofia à literatura, do cinema à sociologia, tendo sempre a música como pano de fundo. Ao entrecruzar todas estas áreas e temáticas, poder-se-ia pensar que a escrita de Eduardo Paes resultaria esotérica para não iniciados. Pelo contrário, os temas e os textos surgem de forma clara e fluída, apenas não percorrem os caminhos trilhados habitualmente, mas é precisamente por isso que são fundamentais, pois iluminam com uma nova luz coisas que nos passariam despercebidas ou que apenas intuiríamos. Em suma, um livro indispensável para todos aqueles que procuram uma escrita apaixonada sobre a música mais desafiante dos nossos sentidos. A encomendar antes que esgote à Chili Com Carne.

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