20 julho 2013

DEAR TELEPHONE



O que prepondera no núcleo de músicos e projectos que emanam dos históricos The Astonishing Urbana Fall é um sentido de modernidade que transforma Barcelos num bairro de pura sofisticação artística de Nova Iorque, Londres ou Berlim. Claro que nada se demarca absolutamente do seu lugar, e os TAUF ou os La La La Ressonance não seriam os mesmos sem alguma portugalidade, mas é efectivamente na abolição do provincianismo e de toda a pacovice que assenta o trabalho destas pessoas. Quero falar dos Dear Telephone, um quarteto de charme que surge agora com o seu primeiro longa-duração. Fazendo apelo a um pop para lá do óbvio, esta formação volta magnificamente a colocar o André Simão como cantor, e ele foi sempre um cantor algo reticente, mas junta-lhe Graciela Coelho, cuja beleza me complica o pensamento e cuja voz se levanta nas canções como verdadeiro diamante de som. os dois completam-se com Ricardo Cibrão e Pedro Oliveira, este último também dos muito excelentes Peixe: Avião. Taxi Ballad, o título do álbum que agora a PAD edita, é uma cápsula de viagem, um táxi entre Barcelos e as cidades de arranha-céus ou noites brancas, e cria uma nostalgia urbana muito precisa, algo que nos faz pertencer aos néones e copos de bebidas elaboradas, penumbras ao pé de ruas movimentadas, encontros furtivos, sexo. Os Dear Telephone inspiram-me um romantismo pansexual, cheio de gula de gente e de solidões controladas. A abertura do disco, com o tema O dearest knight in shining armour, o meu favorito, explica imediatamente que todos os caminhos estão em aberto. O pop do projecto não se limita ao doce da canção, ele promete outras liberdades, do progressivo ao jazzy, os Dear Telephone catalisam tudo quanto contribuir para a sedução. Ficamos com dúvida nenhuma de que este é o primeiro aspecto de um som multifacetado, um som que tem por onde amadurecer, absorver, meditar sobre si mesmo para uma surpresa contínua.
Eu tenho a casa cheia de galos de Barcelos, e eles são um símbolo do bizarro que pode vir daquele lugar. É verdade que desde que apareceram os TAUF que Barcelos foi visto como um certo Entroncamento da música. Um espaço de gigantismo inexplicado. Acho que é isso que acontece no grupo de gente que emana daquele grupo seminal. Gente gigante, a fazer um som muito maior que o país, tão inexplicáveis quanto o galo que se pôs em fuga sem cabeça, escadaria abaixo não sei para onde. [valter hugo mãe]

DISCOGRAFIA


BIRTH OF A ROBOT [CD, PAD, 2011]


TAXI BALLAD [CD, PAD, 2013]

COMPILAÇÕES


NOVOS TALENTOS FNAC 2011 [2xCD, FNAC, 2011]

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