29 julho 2013

NORBERTO LOBO



Norberto Lobo é um músico lisboeta e Mudar de Bina o seu primeiro álbum em nome próprio. Um disco quase absolutamente centrado na sonoridade da guitarra acústica e, por essa via, na capacidade expressiva e interpretativa de Norberto Lobo como guitarrista. Nestes dias de produção musical "cuidada" é fácil esquecermo-nos do carácter eminentemente físico de alguma criação musical. Discos como Mudar de Bina contribuem de alguma forma para a reversão desta tendência. Os truques de produção são mínimos e apenas direccionados a ajustar esta música ao seu ambiente natural: precisamente o seu carácter físico, humano, popular. O álbum foi gravado literalmente entre casa e a rua, e a sua audição revela de forma quase auto-evidente o quanto há de ajustado nesta circunstância. As melodias evocadas, as harmonizações relativamente complexas (em boa parte próprias das características do instrumento) e a abordagem simples e directa da interpretação criam um ambiente de intimidade e de uma certa melancolia que se poderiam dizer "caseiros"; e no entanto há uma força vital, um vigor no ataque e um muito saudável afastamento de toadas sentimentalistas que aproximam claramente este disco da "rua". Da música propriamente dita pode dizer-se que se baseia numa apropriação moderna de vários elementos de tradição sólida e multicultural. Na revisão desassombrada do que lhe é passado (chamar-se o disco Mudar de Bina é já um sinal dessa bem disposta intrepidez) reside o maior respeito que Norberto Lobo poderia votar a essa mesma tradição que "desvirtua" – seja ela a da nossa música popular, seja a do legado de John Fahey e da "escola" associada à Takoma Records. Por outro lado, a assunção elementar do instrumento, com as suas potencialidades e limitações, e a alegria primeira de produzir som e de o sentir no corpo como vibração física parecem transmitir-se ao ouvinte e comunicar com ele a esse nível de fruição que diríamos haver-se perdido, ou pelo menos adormecido, pela forma como nos habituámos a ouvir música: consumindo-a, mais do que a apreciando. Não que esta música seja “difícil”; pelo contrário, a forma como é trabalhada – os baixos alternados, o vigor das harmonizações, a densidade dos arpejos, o brilho das linhas melódicas – põe a sua apreciação num patamar anterior ao da avaliação intelectual pura, no que uma vez mais se aproxima da música de carácter popular (dois dos temas são aliás variações sobre melodias populares). Nela indistintamente convivem elementos de pendor mais contemplativo com outros reveladores de uma alegria e humor vitais (não se tratará por certo de um acaso o facto de Norberto Lobo ter já antes colaborado com esses outros alegres exploradores de sonoridades, os München), assim como elementos de tradição com outros de inevitável - e desejável - modernidade. Mas nunca – e nisso se revela alguma da sensatez musical de Norberto Lobo – o tom geral deste conjunto de gravações resvala para uma apropriação "pós-moderna" dos elementos da tradição ou para um encobrimento bacoco da dívida que para com ela existe. Pelo contrário, a assunção dessas sonoridades que de alguma forma se tornaram de todos é cândida, descomplexada e fundamentalmente alegre, mesmo no seu registo intimista; e assim acaba por soar-nos também este disco. [Francisco Silva] A música de Norberto Lobo tem-nos a todos dentro, mas é integralmente sua. Com "Pata Lenta", o aguardado segundo álbum, apresentado amanhã na Casa do Alentejo, em Lisboa, já não há espaço para duvidar. Há dois anos foi editado "Mudar de Bina", o álbum de estreia de Norberto Lobo, e maravilhámo-nos. Havia a dedicatória a Carlos Paredes e havia Paredes lá dentro, mas não reprodução de uma sonoridade, era coisa de alma, algo de intangível. Não podia ser de outra forma, que Norberto Lobo toca guitarra clássica, não portuguesa. Não podia ser de outra forma porque Norberto Lobo, que passa o dia com uma guitarra às costas, tem a cabeça cheia de música. Música dali e de ontem, música de aqui e de agora. John Fahey e as revoluções do mago da guitarra na Americana. Os sons da cítara de Ravi Shankar e do mandolim de Mandolin U. Shrinivas. E Robert Wyatt e Thelonius Monk e, acima de toda a gente, o multifacetado Jim O'Rourke de quem fala com incontido entusiasmo. Quando ouvimos "Mudar de Bina" há dois anos, onde cabia uma versão de Carlos Paredes, duas do cancioneiro tradicional português, andámos a vasculhar nele algo que explicasse em som isto que vemos e vivemos aqui. Nada mais natural: estamos sempre a procurar no outro algo que nos explique a nós próprios. Nada mais errado: a música de Norberto Lobo tem-nos a nós todos dentro, acolhe-nos a todos, mas é única e integralmente sua. Agora que chega "Pata Lenta", o muito aguardado segundo álbum, que tem festa de lançamento marcada para sexta-feira, na Casa do Alentejo, em Lisboa, às 22h, já não há espaço para duvidar que assim é. Se encontrarem por aí o cartaz que anuncia o concerto desta noite, repararão num pormenor curioso: na colagem que o ilustra, a cabeça de Norberto é um lâmpada iluminada. Coisa bem-humorada, efeito com espírito de BD que lhe denuncia a actividade constante. E, se tivessem acompanhado ao vivo a entrevista do Ípsilon, tê-lo-iam visto chegar à Avenida de Roma, onde conversámos, onde agora vive, "armado" de t-shirt improvável. Eis Norberto Lobo, autor de música que dispensa palavras, guitarrista de uma expressividade tocante. Ei-lo estendendo a mão para nos cumprimentar e eis-nos comentando a peça de roupa que lhe decora o tronco: "Manowar?!" Sim, Norberto acha piada aos ícones mais icónicos do heavy-metal americano, a todos os seus excessos de som e imagem, e conta-nos que um amigo ganhou recentemente a possibilidade de os acompanhar nos bastidores de um concerto espanhol (e ele está entusiasmado porque há espaço para ele). Conhecemos o humor de Norberto Lobo, do seu gosto por Buster Keaton e por versões do genérico do MacGyver (tocava-as há dois anos), e o humor não é certamente alheio à tal t-shirt. Essa, porém, é mero pormenor. Aquilo a que queremos chegar é uma outra coisa. Isto é o que nos dirá quando a conversa se aproxima do final. Falávamos das suas viagens, dos seus concertos Europa fora, daquilo que ia descobrindo de único em cada um desses países e cidades que vai conhecendo. Diz-nos, então, Norberto: "Cada local tem a sua especificidade, mas ao mesmo tempo vê-se que isto é tudo uma grande aldeia. Existem fadistas japoneses, não é? E bandas como os Extra Golden [formados por americanos e quenianos, simbiose de funk e benga], que são um óptimo exemplo de como já não faz sentido falar do que é ou não é de onde. Não sou a favor da conversa globalização versus qualquer coisa, até porque a antropologia já provou que não existe tal coisa como identidade cultural. Fala-se disso há 150 anos, é um tema ultrapassado e a internet ainda vem suportar mais isso." A culpa, portanto, é toda dele. Culpa, expliquemo-nos, desta música ter uma limpidez emotiva que nos trespassa, de ser um diálogo de si para si que, generosa, faz questão de nos acolher nesse movimento. "Mudar de Bina", como dissemos, tinha uma versão de Paredes, duas do cancioneiro português, e isso ajudou-nos a focar o olhar em determinada direcção. "Pata Lenta" tem uma versão de "Unravel", de Björk, e títulos como "Ayrton Senna", "Vento em polpa" ou "Zumbido azedo", mas o olhar não se desvia. Norberto Lobo prossegue viagem e seguimos com ele. "Aquilo [a versão de "Mudar de vida" e do cancioneiro] não eram âncoras", explica. "Pelo contrário, eram desafios, pontos de partida." E ele, saltimbanco da guitarra, músico em viagem, não aprecia regressos: "Quero sentir-me em permanente desafio comigo próprio. Caso contrário, não tem piada." Mais: "Não acho que tenha uma linguagem definida. Sinto que todos os caminhos são ainda possíveis e sinto que sei cada vez menos. Quanto mais me debruço sobre a música, mais vejo o que ainda tenho para fazer." Todos os contrastes. Norberto Lobo até tinha tudo preparado para "Pata Lenta". As canções, o estúdio, o dia em que o gravaria. Depois, atravessou-se-lhe a realidade: "Funcionou quase como um documentário: quando chegas ao local e começas a gravar, descobres outra coisa." Em "Pata Lenta", Norberto quis recriar uma "experiência de concerto". Não lhe interessava a perfeição, interessava-lhe a pureza e intuição da interpretação. "O disco é uma fotografia à música, naquele dia e naquele momento." Para compreender a sua vitalidade importa perceber isto que Norberto nos diz: "Na música que quero fazer o erro é tão importante quanto o resto. Eu não edito, incluo a história sem cortes. Não quero fazer um 'take' perfeito que em concerto não vai existir." Mas, como faz questão de assinalar, "isto não é nada de novo": "Tens outros músicos, como por exemplo o [Thelonius] Monk, em que a maneira como toca é tão importante quanto aquilo que toca." Pormenor importante, este. Porque Norberto é alguém que se diz contra a ideia de que "já tudo foi feito" - pelo contrário, "tudo pode ser feito": "cada pessoa tem a sua expressão individual e fará a sua própria fusão" (di-lo e pede desculpa: "fusão é uma expressão horrível"). Porque Norberto se lembra daquilo que, certo dia, afirmou John Fahey quando lhe perguntaram o que era aquilo que fazia quando subia a um palco. Muito simples: "Vou para lá e hipnotizo as pessoas." Com um pormenor adicional: "Acho que o que ele queria também dizer é que se hipnotizava a si mesmo. Que se hipnotizava a si mesmo, logo, hipnotizava os outros." Então, compreendemos perfeitamente que nos fale do seu fascínio pela ideia de mantra, de "loop": "gosto muito de descobrir uma linha que possa ser navegável durante muito tempo, com diferenças mínimas de bloco para bloco". E reconhecemos que referir "O Caminho Estreito Para o Longínquo Norte", do japonês Matsuo Bashô, e "A Invenção de Morel", do argentino Adolfo Bioy Casares, como importantes para a música que lhe ouvimos ajuda a explicar a misteriosa luminosidade de "Pata Lenta": "O universo do realismo fantástico, na sua expressão mais lata, interessa-me na música, no cinema, na literatura, em qualquer outro lado." Aqui chegados, reformulemos. Norberto Lobo é um músico curioso que se apaixonou recentemente pela tambura, instrumento indiano, ao ponto de já ter uma banda onde a toca em exclusivo (chamam-se Tigrala e partilha-os com Guilherme Canhão, dos Lobster, e com o percussionista mexicano Ian Carlo Mendoza). Norberto Lobo editará nos próximos meses o álbum de estreia dos Norman, banda de rocks e jazzs e experimentalismos que tem há dez anos e onde encontramos o irmão Manuel e o baterista João Lobo. Norberto fala-nos da pintura de Michael Biberstein, que ele adora e que ilustra a capa de "Pata Lenta", fala-nos da sua saudável obsessão por xadrez (se o encontrarem num bar, noite alta, a jogar uma partida, não estranhem, é ritual), fala-nos de música e do resto com igual entusiasmo. E depois, algures entre isso de que nos fala, diz isto assim: "Não sei o que é isso de haver música triste e alegre. A vida não é feita de preto e branco, é feita de cinzentos. Ouço Coltrane e aquilo é de uma pungência... Nem passa por ser triste ou alegre, está acima disso. São as emoções toda numa só canção, como acontece com o [Carlos] Paredes. Isso é o que eu vejo neles." Acto contínuo, acrescenta: "Mas não sei o que as pessoas vêem na minha música." Pois bem, na música de Norberto Lobo vemos tudo isso. A ele e a nós próprios. Isto aqui e aquilo lá fora. Os contrastes todos.

DISCOGRAFIA


MUDAR DE BINA [CD, Bor Land, 2007]


PATA LENTA [CD, Mbari Música, 2009]


TIGRALA [CD, Mbari Música, 2010]


FALA MANSA [CD, Mbari Música, 2011]


MEL AZUL [CD, Mbari Música, 2012]


MOGUL DE JADE [c/ João Lobo] [CD, Mbari Música, 2013]


FORNALHA [CD, Three:Four Records, 2014]


SILENT WATER [LP, Clean Feed, 2014]


MUXAMA [CD, Three Four Records, 2016]

COMPILAÇÕES


NOVOS TALENTOS FNAC 2007 [CD, FNAC, 2007]


T(H)REE [CD, Cobra, 2010]


REINTERVENÇÃO [CD, Orfeu, 2011]

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